Guerras
Fevereiro 26, 2010
Ora, como o inverno está agreste e eu fartinha dele, decidi render-me e aproveitar o melhor que ele me pode oferecer… Posto isto, noite sim, noite não, encaminho-me para o CoffeeSpot aqui perto de casa para beber um chocolate quente, e, consoladíssima, ver a intempérie lá fora. Para descanso do miolo, costumo pegar numa daquelas revistas à disposição do freguês, e, desta vez, a leitura não proporcionou aquela evasão de pensamentos indesejados. Na capa, um combatente aparentemente feliz. Feliz por estar vivo, imagino.
Trata-se da batalha de La Lys, um desastre para os nossos, que foram arrasados, mas que veio a ser decisiva para a vitoria dos aliados. Carne para canhão, ja se sabe. Na véspera de serem transferidos para a rectaguarda (9 de Abril de 1918), caiem-lhes em cima 50.000 alemães. 1.653 dos nossos moços, abatidos logo ali. No geral, foram 7.000 baixas entre mortos, feridos e prisioneiros.
Isto só vem a propósito porque um dos rapazes que esteve em La Lys era o meu avô materno. Teve sorte… ou não; foi ferido mas voltou para casa. Segundo se diz na terra, nunca mais foi o mesmo. Quando bebia era violento, e também soube infernizar a família. Pobre avó Eugénia… Seria pela Guerra ou não, quando se finou, quase ninguém o lamentou a sério. A família lamenta a avó; a ele, não. Não se portou bem, pronto. Ninguém foi feliz… Guerras.
Mas ainda me lembro dele falar-me da Guerra. Talvez porque eu perguntasse. Eu sempre gostei daquele cantil de soldado que estava pendurado na casa do quintal. De um cinto. Do capacete em forma de prato que havia na feira da Ladra. E sabia que essa era a sua farda. Quando puxava o assunto ele ficava muito agitado, de olhos muito arregalados, voz atravessada. Lembro dele contar que passaram muita fome, que comiam raízes que encontrassem na terra e que passou muito frio. Mas também teria boas memórias. Até me ensinou, com orgulho, algumas palavras francesas: raparigas é “filles”, bonita é “jolie”! Como nunca mais me esqueci, é provavel que tenha sido o meu primeiro professor de francês…
E aqui estou eu, descendente da Guerra, a beber o meu chocolate quente. A queixar-me do inverno. A fugir de pensamentos invasivos. A fugir de todas as invasões…
